
FONTE: ACERVO PESSOAL
Quem passa por uma estrada de terra no cerrado, ao fim da tarde, talvez ouça algo que lembra uma gargalhada rouca vinda do meio do capim. Não é gente, nem cachorro. É a seriema, e o grito dela é ouvido a mais de um quilômetro de distância.
A seriema-de-perna-vermelha (Cariama cristata) passa boa parte do dia caminhando. Voa pouco e mal, mas corre muito bem, e é nas pernas compridas que está o segredo do seu sucesso. Ela patrulha o campo devagar, com aquele topete de penas sobre o bico, procurando gafanhotos, lagartos, pequenos roedores e, sim, cobras.
O que chama atenção é o jeito de comer. Como o bico não tem força para despedaçar uma presa grande, a seriema a segura, sacode e a bate repetidamente contra o chão ou contra uma pedra. Quem já viu a cena garante que dá pena do lagarto. Só depois de bem amolecida a presa é engolida. Tem seriema que escolhe uma pedra favorita e volta sempre a ela, como se fosse uma bancada de cozinha.
Outro detalhe curioso está no pé. O segundo dedo tem uma unha maior e curvada, que a ave mantém levantada e usa para segurar a presa.
A família da seriema também tem uma história antiga. Ela é parente distante das chamadas “aves do terror”, gigantes que caçavam nas planícies da América do Sul há milhões de anos, e hoje as seriemas são as parentes vivas mais próximas desse grupo. Bem menores, claro, mas com o mesmo ar de quem manda no pedaço.
Na hora de dormir, a ave que anda o dia inteiro no chão sobe em árvores e arbustos. Os filhotes nascem no ninho, feito de gravetos a alguma altura do chão, e deixam o local ainda pequenos, pulando para o solo, onde continuam a ser cuidados pelos pais.

FONTE: ACERVO PESSOAL
A gargalhada, aliás, não é só para assustar visitantes desavisados. Os casais costumam cantar juntos, em dueto, e o canto serve para marcar território e avisar os vizinhos de que aquele pedaço de campo já tem dono. Ao amanhecer e ao entardecer, é comum um grupo responder ao outro de longe, e a conversa vai passando de um canto a outro do cerrado. Quem vive perto de fazendas conhece bem o som e, muitas vezes, usa o grito das seriemas como um relógio natural do fim do dia.
Outra particularidade é o comportamento discreto da ave. Apesar do porte, ela é desconfiada e prefere manter distância de gente e de carros. Ao perceber uma ameaça, raramente levanta voo: sai em disparada, com passadas largas e o pescoço esticado, e só recorre às asas para subir em uma árvore ou vencer um obstáculo. É por isso que muita gente a vê de relance, correndo pela beira da estrada, e a confunde com uma ave bem maior do que realmente é.
Infelizmente, o cerrado vem perdendo espaço para lavouras e pastagens, e com ele vão os campos onde a seriema vive e caça. Nas áreas de fazenda ela costuma ser tolerada, e até bem-vista, por manter cobras e escorpiões sob controle. Da próxima vez que ouvir aquela gargalhada esquisita no fim de tarde, pare um pouco. Você provavelmente está sendo observado por uma das moradoras mais antigas do lugar.