O hoatzin, a ave que cheira a esterco e tem garras de dinossauro na infância

FONTE: ACERVO PESSOAL

Tem ave na Amazônia que parece ter escapado de outra era. Corpo desengonçado, crista pontuda na cabeça, olhos vermelhos e um cheiro que ninguém esquece: o hoatzin, conhecido também como cigana ou cigana-d’água, é um dos pássaros mais estranhos e curiosos que existem no Brasil, e cada detalhe dele parece contar uma história diferente da maioria das aves.

Encontrado em áreas alagadas, igarapés e margens de rios da Amazônia, o hoatzin (Opisthocomus hoazin) tem um sistema digestivo que não é comum entre aves. Ele se alimenta principalmente de folhas, o que já é raro no mundo das aves, e faz a digestão por fermentação, um processo parecido com o que acontece no estômago de vacas e outros ruminantes. O alimento fica fermentando em uma parte dilatada do papo antes de seguir para o resto do sistema digestivo, e é justamente essa fermentação que gera o famoso cheiro forte, parecido com esterco, que rendeu ao hoatzin o apelido inglês de “stinkbird”, literalmente “pássaro fedorento”.

FONTE: ACERVO PESSOAL

Esse cheiro, aliás, funciona quase como uma defesa. Poucos predadores se interessam em caçar uma ave que exala odor de matéria em decomposição, e isso ajuda o hoatzin a sobreviver relativamente tranquilo nas áreas alagadas onde vive, mesmo sendo um voador fraco e desajeitado.

Mas a curiosidade mais impressionante do hoatzin está na infância. Os filhotes nascem com duas garras funcionais nas asas, parecidas com dedos, que usam para se agarrar em galhos e escalar a vegetação ao redor do ninho. Se caem na água durante uma fuga de predador, os filhotes nadam até a margem e sobem de volta usando essas garras, como pequenos alpinistas. Conforme crescem, essas garras desaparecem, e a ave adulta perde completamente essa característica. Esse detalhe chamou tanto a atenção de cientistas que o hoatzin costuma aparecer em discussões sobre a evolução das aves, já que lembra características vistas em fósseis de aves muito antigas, como o Archaeopteryx.

Vive geralmente em bandos, empoleirado em arbustos e árvores baixas próximas à água, alternando entre digerir a refeição pesada de folhas e se aquecer ao sol, quase parado, o que reforça ainda mais essa aparência de ave “preguiçosa” e fora do padrão. Apesar do visual estranho e do cheiro, o hoatzin não corre risco de extinção e é considerado um símbolo curioso da biodiversidade amazônica, um lembrete vivo de que a natureza, às vezes, prefere soluções bem diferentes do óbvio para garantir a sobrevivência de uma espécie.