
FONTE: ACERVO PESSOAL
Tem bicho no Brasil que parece ter saído de um desenho antigo: pelagem cinza e preta em forma de bandeira, focinho comprido e afunilado, cauda enorme e cheia de pelos. É o tamanduá-bandeira, um dos mamíferos mais curiosos e reconhecíveis da fauna brasileira, e boa parte do seu segredo está escondida dentro daquele focinho estreito.
O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) não tem dentes. Nenhum. Para se alimentar, ele depende inteiramente da língua, uma estrutura fina, cheia de saliva grudenta, que pode ultrapassar 40 centímetros de comprimento. Ao encontrar um cupinzeiro ou formigueiro, o animal rasga a estrutura com as garras dianteiras, enormes e curvas, e enfia o focinho na abertura. A língua entra e sai em disparada, batendo até 150 vezes por minuto, grudando formigas e cupins como se fosse fita adesiva.

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Essa visita, porém, é rápida. O tamanduá raramente destrói um cupinzeiro por completo. Ele come por poucos minutos e vai embora, deixando a colônia se recuperar para uma próxima refeição dali a algumas semanas. É quase um manejo sustentável natural, e faz sentido: um único tamanduá pode visitar dezenas de cupinzeiros e formigueiros diferentes ao longo do dia, então não vale a pena esgotar nenhum deles de uma vez.
As garras dianteiras, aliás, são tão fortes e afiadas que o bicho precisa andar apoiado nos nós dos dedos da pata da frente, como se estivesse caminhando com os punhos fechados, para não cegar as próprias garras no chão. Apesar do jeito desengonçado de andar, o tamanduá-bandeira é surpreendentemente perigoso quando se sente ameaçado. Ele se levanta nas patas traseiras, apoiado na cauda, e usa as garras dianteiras para se defender de predadores como onças e até de cães, sendo capaz de causar ferimentos sérios em um abraço de defesa.
Outra curiosidade é a temperatura corporal. O tamanduá-bandeira tem uma das temperaturas corporais mais baixas entre os mamíferos, girando em torno de 33°C, resultado direto de uma dieta pouco calórica e de um metabolismo mais lento. Por isso, é comum vê-lo tomando sol deitado de lado, especialmente em dias frios, parecendo mais preguiçoso do que realmente é.
A espécie ocorre em diversos biomas brasileiros, do cerrado ao pantanal, passando pela caatinga e por áreas de transição da Amazônia. Infelizmente, está classificada como vulnerável à extinção, principalmente por causa de atropelamentos em rodovias e queimadas, já que o animal não corre rápido o suficiente para escapar do fogo ou do trânsito. Proteger seu habitat e respeitar a velocidade em estradas que cortam áreas naturais é uma forma simples de garantir que essa língua de quase meio metro continue fazendo sua ronda silenciosa pelos cupinzeiros do Brasil.