O peixe que sobe cachoeira: a incrível jornada do bodó

FONTE: ACERVO PESSOAL

Se alguém falar que existe peixe no Brasil capaz de escalar pedra molhada, subir cachoeira e até sair da água por um tempo, a reação mais comum é desconfiar. Mas quem já andou por rios de cabeceira em Minas Gerais, no interior de São Paulo ou em áreas serranas do Nordeste provavelmente já viu a cena de perto: o bodó, um peixe de couro grosso e cara de armado, colado na pedra em plena queda d’água, subindo devagar como se estivesse escalando uma parede.

O bodó é o nome popular dado a várias espécies de cascudos, peixes da família Loricariidae, cobertos por placas ósseas em vez de escamas comuns. É esse “couro de armadura” que dá o apelido de peixe-cascudo. Ele vive no fundo dos rios, é de hábito noturno e se alimenta principalmente raspando algas e restos orgânicos de pedras e troncos com a boca em formato de ventosa.

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E é justamente essa boca que resolve o mistério da escalada. A boca do bodó funciona como uma verdadeira ventosa natural, permitindo que o peixe se prenda com força a superfícies verticais, até mesmo debaixo d’água corrente forte. Some a isso as nadadeiras peitorais bem desenvolvidas, que funcionam quase como patas de apoio, e o resultado é um peixe capaz de subir cachoeiras pouco a pouco, em movimentos curtos, sempre grudado na pedra para não ser levado pela correnteza.

O motivo de tanto esforço é simples: sobrevivência e reprodução. Em época de seca ou de desova, subir a cachoeira pode significar chegar a um trecho do rio com mais oxigênio, menos predadores ou melhores condições para os filhotes. Não é um comportamento raro entre peixes de água doce brasileiros, mas no bodó ele fica particularmente visível, já que o bicho literalmente “escala” a rocha à vista de qualquer curioso parado na beira do rio.

Outra curiosidade é a resistência fora da água. Graças à couraça óssea e à capacidade de respirar ar atmosférico por um tempo curto usando o intestino como auxílio respiratório, alguns cascudos conseguem sobreviver minutos, às vezes até horas, fora do ambiente aquático, principalmente quando o nível do rio baixa muito. É esse conjunto de adaptações que torna o bodó um dos peixes mais resistentes e adaptáveis da fauna de água doce do país.

Apesar da aparência “brava”, o bodó é inofensivo para o ser humano e tem papel importante na limpeza natural dos rios, já que ajuda a controlar o excesso de algas. Em algumas regiões, também é aproveitado na alimentação, preparado em receitas tradicionais de interior. Da próxima vez que passar perto de uma cachoeira de rio pequeno, vale a pena parar um minuto e olhar as pedras molhadas de perto. Pode ser que um bodó esteja ali, silencioso e paciente, fazendo sua escalada particular contra a correnteza.